Foto: LDU (Divulgação)
Treinador está sem clube desde que foi demitido da LDU, do Equador, em julho

De volta a Santa Maria para passar alguns dias com a família após deixar o comando da LDU, do Equador, o técnico Tiago Nunes também analisou a realidade do futebol da região e do Rio Grande do Sul.
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Em entrevista ao programa Papo D Esporte, da Rádio CDN 93.5 FM, o treinador santa-mariense afirmou que as dificuldades financeiras dos clubes são antigas, defendeu uma profissionalização maior da gestão esportiva e fez uma avaliação que classificou como impopular: na visão dele, Santa Maria não comporta mais dois clubes profissionais.
O santa-mariense, que foi preparador físico e teve breve passagem pela gerência de futebol do Inter-SM, além de ter trabalhado como preparador e técnico no Riograndense, ressaltou o carinho que tem pelos dois clubes, mas acredita que a divisão de recursos dificulta o fortalecimento do futebol local.
– Na minha opinião, Santa Maria não comporta mais dois clubes de futebol profissional. Isso faz bastante tempo. Tenho carinho e entendo a rivalidade, entendo a cultura do Riograndense e do Inter-SM, mas infelizmente não tem como hoje você comportar dois clubes e dividir forças. Poderíamos estar mais unidos, tentando arrecadar mais recursos, todos envolvidos em um projeto único – defendeu o técnico campeão da Copa do Brasil e da Sul-Americana pelo Athletico-PR.
Tiago fez questão de destacar, porém, que a opinião é de quem observa a realidade de fora.
– É uma opinião impopular. Sentado na minha cadeira, no meu sofá, na minha casa, olhando de fora. É importante pontuar isso porque estar lá, ser presidente desses clubes, é muito difícil. Tem que bater palma para quem topa esse tipo de desafio – acrescentou Tiago.
Dificuldades antigas
Questionado sobre as dificuldades de se fazer futebol no interior e sobre a ausência de representantes da região na Divisão de Acesso Gaúcha deste ano, o treinador afirmou que não existe uma explicação única para o cenário atual.
– Essa pergunta é a pergunta de um milhão de dólares. É muito difícil de responder porque é multifatorial. Não é só um fator ou dois que resultam nesse processo – disse.
Para Tiago, os desafios enfrentados hoje são semelhantes aos que conheceu quando começou a carreira no futebol santa-mariense.
– A questão econômica, de como sustentar um clube durante um ano todo, de onde encontrar patrocinadores para fortalecer esses projetos e formar jogadores, sempre foi uma dificuldade muito grande – pontuou.
Ele destacou que a realidade não é exclusiva de Santa Maria e da Região Central.
– Tenho amigos em Santa Cruz do Sul, Lajeado e Pelotas, e as dificuldades são muito parecidas. A questão econômica acaba sendo determinante. Ninguém mais coloca dinheiro em qualquer projeto sem ter alguma contrapartida – avaliou.
Gestão profissional e perda da identidade
Para ele, a sobrevivência dos clubes depende cada vez mais da profissionalização da gestão.
– O futebol se tornou algo que gera muito dinheiro. É preciso ter profissionais capacitados em todas as áreas. Não dá mais para o amigo ou o torcedor assumir funções importantes. É necessário ter gente preparada e remunerada para fazer isso de maneira profissional – afirmou.
Na avaliação do treinador, outro problema está na perda da identidade regional do futebol brasileiro.
– A gente perdeu muito da essência do futebol regional. O futebol gaúcho tinha uma característica própria, o carioca tinha outra, o Nordeste tinha outra. Hoje todo mundo quer jogar igual. E jogar igual favorece quem tem maior capacidade de contratar os melhores jogadores – analisou.
Segundo ele, esse cenário amplia a distância entre os clubes brasileiros.
– Hoje quem contrata os melhores jogadores são Flamengo e Palmeiras. Eles estão abrindo uma distância muito grande para os demais clubes porque estão organizados na gestão e têm capacidade financeira para contratar. Fica muito difícil competir – disse.
Tiago citou o Mirassol, eliminado da Copa do Brasil pelo Grêmio na quarta-feira, como exemplo de equipe que conseguiu romper o padrão.
– Tem algum outro que surpreende de vez em quando porque pensa um pouquinho fora da caixa. Teve o Mirassol, por exemplo, com um bom treinador e um projeto. Mas, às vezes, também é difícil sustentar isso a longo prazo – comentou.
Para o treinador, a recuperação do futebol gaúcho passa por uma revisão da forma como os clubes são administrados.
– Se a gente continuar seguindo esse mesmo padrão de avaliação, vai seguir tendo os mesmos resultados que vem colhendo atualmente – concluiu.
Confira a entrevista completa